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sábado, fevereiro 04, 2012

Podres de Ricas


Assisti uns pedaços na mais nova sensação trash da TV brasileira. O realty show Mulheres Ricas, da Band. Fiquei de cara com o "naipe" das figuras mostradas neste verdadeiro show de horrores, tão distante de qualquer riqueza ou realidade.

O programa mostra o "dia-a-dia" de um bando de peruas e seus arroubos de deslumbramento e ostentação. Verdade seja dita, há entre elas as que guardam alguma conexão com o mundo dos mortais, como a ex-sem terra, ex-playboy, ex-Fantasia e ex-piloto de Truck Débora Rodrigues. Mas há as que parecem tomar champagne como se fosse água mineral, e acham que arrorar marcar famosas é sinal de luxo. Irônico quando vindo de quem já exerceu a profissão mais antiga do mundo, e possivelmente bebeu muita coisa diferente por aí.


Claro que para se fazer um programa de televisão é preciso contar com bons personagens, e estas senhoras sabem disso, interpretando caricaturas de si mesmas e forjando amizades verdadeiras como notas de três reais.

Vejo este tipo de programa como entretenimento puro. Uma bobagem, uma besteira, rasa, fútil, descartável., sem maiores consequências. Mas o incrível é como tem gente que leva a coisa a sério, vendo em tudo motivo de revolta, vergonha das mazelas nacionais, etc. Balela! Dar a este programa uma importância que ele não é dar valor ao que não merece. Pior ainda é quem acredita no que vê e transforma este padrão de comportamento em objetivo de vida. Isso sim, lastimável.


Meus ciclos de amizades abrangem pessoas de todas as classes. Tenho amigos com pouca grana e amigos com muita grana. Mas muita grana, mesmo! Especialmente nestes percebo o quanto a educação vale mais que o saldo bancário. É o berço que define o que a pessoa é na vida - seja o berço de ouro, de madeira ou de caixote.

Eu me lembro certa vez de uma amiga, de família muito rica, que se casou e foi morar no Rio com o marido. Ambos trabalham para pagar suas contas e se sustentarem sozinhos. O casal tem apenas um carro, usado normalmente pelo marido. Ela vai pro trampo todo dia de ônibus. "Vou querer dois carros pra quê? Quero só ter dinheiro pra andar de taxi quando precisar e viajar o mundo quando quiser."

Taí a diferença entre ter bens e ter valores.

domingo, agosto 21, 2011

Quando "ser gay" é realmente uma questão de opção


Um dos termos mais combatidos pela militância LGBT é o clássico "opção sexual".

"A pessoa já nasce gay, não escolhe ser gay. Não é um caso de 'opção'" Segundo essa lógica o mais correto é falar de "orientação sexual". Não sou daqueles que perdem os cabelos quando ouço ou leio alguém usar o termo "errado" mas comungo do mesmo pensamento. Quando acho adequado, modestamente, até me disponho a "corrigir" o interlocutor, até porque a maior parte das pessoas sequer tem noção da sutil diferença entre as palavras.

Entretanto, se se uma pessoa não pode escolher em qual sentido se dá a inclinação de seu desejo sexual (hetero, homo, bi, pan, etc.,), a maior parte das pessoas pode sim optar entre vivenciar este desejo ou reprimi-lo. Não é uma questão de se escolher gostar de pessoas do mesmo sexo, mas, partindo do pressuposto de que o desejo sexual é por uma pessoa do mesmo sexo, tem-se uma questão de escolher colocar em prática (de forma aberta ou oculta) este desejo.

Assim, posso dizer, com muita tranquilidade, que não tive escolha entre ser hetero ou homossexual. Isso foi algo nato, sobre o qual jamais teria condições de alterar se quisesse. Mas tenho clara noção de que, há alguns anos, optei por viver as experiências que meu corpo e mente demandavam. Mais ainda. há bem poucos anos fiz também a opção de vivenciar isto de forma cada vez menos clandestina para colegas, amigos e, principalmente, família.

Cada indivíduo tem um "tempo de maturação" na descoberta de sua sexualidade - em especial da homossexualidade. Meu caminho foi longo, às vezes tortuoso, mas contínuo. O tempo todo evitei o enfrentamento, o que me poupou de muito sofrimento, mas também me custou um tempo precioso que poderia desfrutar junto a pessoas queridas, sem medo.

Com a cabeça que tenho hoje, talvez não tivesse demorado tanto a me expor mais. Mesmo assim, não me arrependo das escolhas feitas. Sou hoje resultado delas e, modéstia à parte, acho que mandei bem. Espero poder contribuir para que cada vez mais pessoas se sintam à vontade para poderem optar por viverem suas vidas e desejos com liberdade.

E que ninguém tenha mais medo se optar por ser gay.

segunda-feira, maio 16, 2011

Tango


Vontade de escrever alguma coisa aqui. Quase qualquer coisa. Tirar alguns minutos do tempo corrido de todo dia que servem de justificativa (ou desculpa?) para a ausência. Seja o trabalho. Seja a família. Seja a casa. Seja lá o que for. Saudades dessa minha casa virtual, atualmente tão mal cuidada. Não terminei a história do Saint Patrick's Day. Não comentei a decisão do STF sobre união de pessoas de mesmo sexo. Não falei das festas em família. Nem das brigas em família. Não falei de como meus clientes caminham para ser milionários e eu patino no cheque especial. Não falei de amigos queridos cujo contato retomei. Não falei de médico, academia ou avaliação física. Mas decidi, pela enésima vez, tentar reorganizar algumas coisas, a começar pelo tempo. Nisso tudo, resolvi tirar uns dias para mim. E sem querer mais adiar, em junho, dou uma pausa em tudo e parto para conhecer Nuevos Aires.

sexta-feira, abril 29, 2011

Gentileza gera gentileza


Porque não tem nenhum sentido uma pessoa "pedir carinho e atenção" à base de alfinetadas, ressentimento e cobranças.

quinta-feira, janeiro 28, 2010

Conquistando a clientela

O Mercado Central é um conhecidíssimo ponto turístico de Belo Horizonte. A construção antiga tem centenas de barracas, com os mais diversos produtos. Frutas, legumes, especiarias, produtos naturais, ervas, artesanato, queijos, cachaças, animais vivos (!) e muito mais. Sem contar com o famoso corte de cabelo, que vem com um abacaxi de brinde.

Uma das maiores tradições do Mercado Central são seus bares, muitos deles colocados frente a frente em alguns de seus estreitos corredores. Na verdade, são pequenas vias de passagem entre os corredores maiores. (Fiquei um tempão aqui pensando em como melhor descrever a disposição dessas lojas sem apelar para conceitos geométricos chatos e desisti. Quer mais detalhes? Procura aqui.)

Nesses lugares, as pessoas se aglomeram pra beber cerveja (ideal pra quem gosta de "tomar em pé" - hehehe) e beliscar uns tira-gostos, como o também tradicional fígado com jiló acebolado.

Dada a acirrada concorrência, muitos dos atendentes de penduram nos balcões com garrafas de cerveja gelada nas mãos para atrair as pessoas que passam, como se estivessem "pescando" os clientes. Essa prática gera cenas inusitadas e engraçadas, que reforçam o caráter pitoresco e animado do lugar.

Poderia escrever aqui sobre como nos últimos anos muitos gays têm dado as caras por aqueles lados, senqie que já se pode identificar alguns pontos em que o Mercado parece sempre estar mais florido. Mas esse é um fenômeno que acontece por toda cidade, e o que me motivou a escrever este post foi outra constatação

Outro fim de semana, passando pelos corredores do Mercado Central, me dei conta de outro tipo de assédio a clientela muito comum, que acontece não é de hoje, mas sobre o qual não vi ninguém escrever ainda. É que tem um corredor onde se concentram várias lojas de suplementos alimentares, destinadas ao pessoal da malhação, vendendo Whey Protein, Albumina, Mega Packs, Fat Burners, e produtos afins.

Obviamente são escolhidos para trabalhar nessas lojas os caras mais gatos, com corpo sarado, bem exibidos em uniformes justos. E é só passar um cara com potencial de comprador (nem precisa muita coisa, basta usar uma camiseta e uma bermuda) que esses caras logo começam a mexer. "E aê, chagado. Precisando de alguma coisa?"; "Falaê, mermão. Chega mais aqui."; "Opa, campeão. Posso te ajudar?"; "Ow, fera. Procurando algo?". É algo de levantar qualquer moral você passar por esses corredores e se ver assediado por tantos caras bonitinhos e gostosinhos, e com tamanha insistência.

Dizem que o melhor tratamento para uma mulher deprimida e de baixo astral é colocar uma saia curtinha e passar na frente de uma obra, pra ouvir as cantadas do pessoal dos andaimes. Pois bem, guardadas as devidas proporções, posso dizer que o vendedor de suplementos é o equivalente gay do peão de obra.

quarta-feira, janeiro 13, 2010

Sutileza


Um grande amigo me manda um email, com uma série de pensamentos e lembranças sobre sua vida, seus medos, seus atos, erros e acertos. Indagações detonadas após ver o filme "Do começo ao fim", já exaustivamente abordado na blogaysfera em geral. De todo emocionado (e emocionante) texto recebido, destaco uma frase que faço questão de registrar aqui:

"O amor é tão sutil que demorei seis anos para percebê-lo com clareza."

Leio esta frase e penso no sofrimento não apenas dele, mas também de muitos de nós, que têm relutância em se entregar aos sentimentos e, às vezes, desperdiçamos grandes oportunidades de sermos felizes. Grande é o mérito de quem é capaz de perceber a tempo essas sutilezas da vida, especialmente quando se vive o desafio do amor entre iguais.

quinta-feira, maio 07, 2009

Casamento do meu melhor amigo (ou fragmentos de uma mente alcoolizada)


Sábado passado foi o casamento do meu melhor amigo.

Pensei em escrever um grande post sobre isso. Afinal, ele é a única pessoa que transpassa por quase todos os meus vários universos. Lá na festa estavam minha família, meus amigos de infância, meus amigos de faculdade, dentre diversas outras pessoas amigas, conhecidas, etc., que fazem parte de minha história. Em nenhum outro evento conseguiria reunir tanta gente de círculos diferente de amizade quanto neste. Mais uma vez, emergiram sentimentos que se mostram comuns em "N" outros casamentos em que estive presente, talvez com mais intensidade.

Até por isso, e pelo tempo decorrido, provavelmente ste poderia acabar sendo mais um dos 'trocentos posts que eu coloco em mente, mas acabo não postando. Muitas boas idéias que se perdem pelo cansaço, pela preguiça, etc. Uma pena, mas não vou detalhar mais nada aqui.

Destaco apenas o essencial, a percepção de como verdadeiras amizades não se corroem com o tempo, ou a distância, ou até mesmo com atitudes ásperas. A semana foi rica em exemplos desta natureza. Diferentes situações. Diferentes tensões. De comum, a sensação de que relacionamentos estavam sendo colocados "em prova", ou algo parceido.

Olha, umas long necks me ajudaram a escrever isto esta noite. Mas desde o final da tarde percebi que, em tempos de raras palavras, são sempre as mesmas poucas pessoas que me inspiram e instigam a escrever aqui.

terça-feira, janeiro 20, 2009

Olhar pra frente


Eis que hoje, depois de muito tempo, resolvo dar uma olhada no meu horóscopo, e vou para o site que tem a previsão mais bacana, na minha opinião, que é o Esotérico do Terra. Não contente com a minha previsão pra hoje, vou logo lendo a previsão de amanhã, e me deparo com o seguinte texto.

"Nesta fase você precisa refletir sobre os acontecimentos dos últimos meses. Suas escolhas e o resultado delas. Relacionamentos passam por mudanças profundas e por isso a hora é de colocar as cartas na mesa. Pode pintar um clima de nostalgia. Olhe para o que tiver que olhar e sem medo tome as decisões que deve tomar."

Olha, não é que eles acabam acertando muitas vezes!

quinta-feira, janeiro 08, 2009

Em manutenção

Depois de um fim de ano de alguns excessos e descuidos, cá estou eu de volta à rotina em Belo Horizonte. O que inclui acordar cedo, trabalhar umas dez horas por dia, chegar em casa tarde da noite, dormir mais tarde do que devia para, no dia seguinte, acordar também mais tarde do que deveria.

Hoje em especial foi o dia em que voltei pra minha terapia e pra minha academia. Nossa, como é difícil quando se está há um tempo sem praticar... E, ao final do dia, percebo o quanto tenho pra ajustar, tanto na minha mente quanto no meu corpo. E se eu tivesse que sintetizar ambos numa única figura metafórica, diria que tenho muito o que ajustar em meu coração.

O negócio é trabalhar bem, mente e corpo, para fortalecer os dois pras pancadas que a vida nos reserva. Mas acredito no valor da perseverança e nos resultados colhidos após longos esforços. E afinal, como já dizia Renato Russo, "quem acredita sempre alcança".

quarta-feira, dezembro 31, 2008

Final de ano

É hora do tradicional post de final de ano. E nesse momento penso apenas em colocar online o registro de algumas impressões sobre o ano que termina em poucas horas.

Foi meu primeiro ano completo na minha nova casa, na qual planejei fazer um bocado de mudanças, mas em que na verdade não mexi quase nada. Pelo menos já paguei 25 porcento do financiamento, que foi contratado para 20 anos, mas que pretendo quitar em no máximo mais dois.

Trabalhei como nunca e termino o ano com a sensação de que não estou conseguindo dar conta de tudo que tenho pra fazer. Acho que não termino 2009 no mesmo sistema de trabalho e penso seriamente em sair do meu serviço público e ficar 100% no escritório. Do jeito que está, não dá pra continuar. Mas não reclamo. O aumento no trabalho foi compensado com um aumento na renda. Graças a Deus, sou um sujeito que me sustento sozinho e não tenho necessidade de fazer muitas contas pra satisfazer a maior parte das minhas pequenas vontades cotidianas.

Na vida familiar, 2008 foi um ano mais tranquilo que os anteriores. Agradeço muito por ter meus pais por perto, vivos e saudáveis, ainda que a idade pareça lhes pesar um pouco mais a cada ano. Minhas irmãs parecem estar encontrando, cada uma, seu rumo para a estabilidade e meu sobrinho tem demonstrado se tornar uma pessoa muito bacana, inteligente e equilibrado, que hoje exerce na casa dos meus pais um papel que foi meu quase que minha vida toda.

Tempo é um artigo raro e caro hoje em dia. Fiz um baita esforço pra malhar pelo menos três vezes por semana, e em alguns meses tive sucesso. Difícil é só poder malhar entre nove e dez horas da noite, num lugar longe de casa, algumas vezes até sozinho. Cresci um bocado: nos braços, no peito, nos ombros... e na pança! Saudades do tempo que eu tinha abdômen, e não barriga! Mas nada que não se dê jeito. Aos 30 anos, sei que não faço feio e me olhando no espelho vejo que eu me pegaria muito mole.

Finalizo o ano solteiro, após terminar um namoro que durou um ano e meio. Terminei porque o relacionamento passou a me render mais estresse que e solidão que alegrias e companheirismo. Como sempre, sou hoje amigo do meu ex, de quem gosto bastante como pessoa, mas não conseguiria mais ter como namorado.

Desde então conheci algumas pessoas, fiz novos e bons amigos, mas mantenho-me sem compromisso com ninguém, a não ser comigo mesmo. De verdade, lamento que quem eu quero mesmo esteja tão longe e que a gente ainda não tenha conseguido se encontrar. É difícil viver essa expectativa à distância por tanto tempo, mas sou brasileiro e não desisto nunca. No tempo certo, o que tiver de acontecer vai acontecer.

Viajei menos do que queria, Vi a Fórmula 1 em São Paulo e o show da Madonna do Rio. Aliás, 2008 foi o ano de reafirmar minha paixão por esta Cidade Maravilhosa, para a qual vim algumas vezes durante o ano, e também onde passarei a virada. Enquanto esperto a hora de ir pra Copacabana ver os fogos, fico aqui, na casa de um amigo que amo de paixão, e que conhecer pessoalmente foi um dos melhores feitos do ano. Obrigado, Ricardo, por toda atenção, carinho, apoio, paciência, inspiração e exemplo durante este ano.

Enfim, o ano novo começa com cara nova no blog, por obra e graça do amigo Enfil, cuja criatividade me surpreende a cada post.

No mais, fica um desejo de um excelente 2009 a todos!

quarta-feira, outubro 01, 2008

Cala-te boca

Se um dia resolvesse ser padre, acho que no seminário eu tiraria as maiores notas na matéria "Atendimento no Confessionário". Desde há bastante tempo, inúmeras pessoas, de inúmeras origens, pelos interesses mais diversos, encontraram em mim porto seguro para suas confidências. Lembro-me, por exemplo, de uma garota com quem saí na adolescência – é, teve época que eu (achava que) era hetero – e já no primeiro encontro ela danou a me contar coisas escabrosas de sua família, sobre as dificuldades de relacionamento com os pais, casos de infidelidade, etc. À medida que a garota falava, eu tentava não mostrar uma cara de espantado, mas indagava com meus botões por que diabos ela revelava coisas tão cabeludas pra uma pessoa que mal a conhecia.

Outro exemplo, mais recente. Há poucos anos, um conhecido gay (na época éramos até amigos) veio me relatar sobre um abuso que sofreu na adolescência, na sua cidade de origem no interior de Minas, por parte de um sujeito um pouco mais velho (deviam ter cerca de 13 e 16 anos). Ele me relatava, com lágrimas nos olhos, os sentimentos que teve quando viu o sujeito anos depois, no seu local de trabalho em BH, descrevendo sobre o nojo que sentiu, e sobre outros detalhes mais íntimos do trauma que o episódio lhe causou.

Penso que nestes casos, como em dezenas de outros, as pessoas viram em mim uma pessoa confiável, à qual poderiam narrar segredos de diversas naturezas, com a certeza de que tais relatos não seriam reproduzidos. E eu realmente sei guardar apenas para mim as confidências que me são feitas, mesmo que isto me custe a perda de certas oportunidades que uma "língua solta" poderia me trazer.

O problema é que o tempo foi passando, e a experiência acumulada acabou por me atiçar outro papel junto ao de confidente: o de conselheiro. Sim, agregado à função de ouvir os casos alheios, em algumas oportunidades, aventurei-me a dar meus pitacos sobre o que achava das situações. E, na quase totalidade das vezes, por questão de extrema cautela, impus-me a regra básica de que conselho só é dado a quem pede. Quando muito, pode ser sugerido a quem demonstra precisar muito, e olhe lá!

Só que começo a ver que esta "função agregada" é por demais traiçoeira. E mesmo com a regrinha básica acima mencionada, muitas vezes a pessoa que pede sua opinião logo depois mostra que preferiria realmente não ouvir o que você tem a dizer. E nisso surgem situações deveras desagradáveis.

Certa vez recebi um SMS com estes exatos dizeres: "Te mandei email. Olha lá se puder e comente. Seus comentários me são muito importantes, sabe disso. Bjo." Por essas e outras tantas situações, recentemente, julguei-me na liberdade de dar palpites na vida alheia. Ledo engano. Disse muita coisa desagradável e, em troca, recebi outras tantas de igual ou maior aspereza. E não me cabe analisar quem está "certo" ou "errado". (Possivelmente, errados fomos os dois.) Nem me cabe também querer imbuir-me das dores e aflições alheiras até porque outra pessoa também já me acusou de ser incapaz de me colocar na posição de meus interlocutores.

Nisso tudo, vejo que tenho que aprender a avaliar melhor as situações e, via de regra, começar a agir tal como Wilson, a bola de volei companheira de Chuck Noland, personagem de Tom Hanks no filme "Náufrago". Com seu semblante impassível, Wilson foi capaz de acompanhar as agruras de Chuck anos a fio, sem lhe dirigir um único palpite errado ou comentário torto. Mesmo em silêncio, ele foi mais capaz de dar-lhe ânimo que centenas de palavras bem intencionadas não conseguiriam. E, no final, Chuck acabou chegando bem casa.

quinta-feira, setembro 25, 2008

O "meio" e o ambiente


"Você freqüenta o meio?"

Lembro-me do meu início na vida gay, quando eu sequer tinha certeza do que gostava ou deixava de gostar, mas dispunha-me a experimentar o contato íntimo com outros homens. Nas conversas em chats na internet, ou no msm, a indagação sobre o "meio", muito comum entre os iniciantes e os enrustidos (e no meu caso eu era ambos), aparecia tanto quanto o famigerado "Você é A ou P?".

Durante muito tempo, relutei em ir a lugares gays, especialmente por medo de ser reconhecido. Também a atmosfera de alguns deles, muito sombria e erotizada, não me trazia uma energia boa. Questionava-me por que tais lugares tinham que ser, ao mesmo tempo, locais para esconder o rosto das pessoas "lá de fora" e pra expor o corpo pras pessoas "lá de dentro". Por essas e outras, muitas pessoas valorizam os que não "freqüentam o meio" quase tanto quanto aquelas que são "discretos" e "não afeminados". No fundo, parece que o contato com outros gays ganha um aspecto "contagioso", que a afetação é transmitida pelo toque, ou pelo ar, ou que homossexuais são classificados pelos seus próprios pares em categorias que chamaria de, digamos... "graus de viadagem".

Minha introdução no "meio" se deu de forma lenta, gradual e irreversível. Aos poucos, fui conhecendo lugares novos. Percebi que só se embrenha na escuridão e na promiscuidade quem deseja. Identifiquei locais bacanas, abertos, iluminados, cheios de saúde e vida. Principalmente, vi-me em alguns ambientes em que me senti à vontade, podendo ver e ser visto sem medo de qualquer represália. Isso tudo sem me agredir, sem mudar meu jeito de ser, agir ou pensar.

Acontece que, nas últimas semanas, até mesmo pelo recente final de meu namoro, acabei por um movimento "natural" restabelecendo contatos com amigos "das antigas", dos tempos de colégio e faculdade. Coincidiu ainda de, em dois finais de semanas seguidos, eu comparecer a três casamentos e um churrasco, todos com turmas de amigos heteros, que não sabem (e nem se mostram interessados em saber) sobre minha sexualidade.

No entanto, impossível não registrar que ao lado da alegria dos reencontros com várias pessoas queridas, com as quais meu contato havia rareado, estes eventos também me trouxeram momentos de um certo incômodo.

Era chato ser o único desacompanhado no meio de vários casais.
Era chato perceber que eu fui um dos únicos que recebeu apenas um "convitinho" pra festa, ao invés de dois.
Era chato ver que, ao final da noite, os poucos solteiros sempre tratavam de abordar e mulheres do local, quase sempre com sucesso (ah, no meu tempo de hetero as mulheres nunca davam esse mole todo!).
Era chato perceber que as mulheres no local não me interessavam, e que mesmo pelos próprios homens eu não me empolgava.
Era chato me sentir quase um ser assexuado.

Nestas situações, por mais que me encontrasse entre amigos, e por mais que percebesse que não havia qualquer pressão ou expectativa sobre minha pessoa, era fato que eu me sentia "sem ambiente". Tal como uma pessoa que se sente incomodada quando não tem o hábito de usar gravata e é obrigada a vestir num evento especial. Ou uma pessoa que coloca um sapato novo e caminha a tarde inteira com o calçado apertando o calcanhar. Só que meu incômodo era na alma. De alguma forma me sentia tolhido em parte importante da minha integridade. Não consegui agir em plena liberdade.

Por essas e outras que após um dos casamentos não hesitei em sair no final da festa e ir diretamente para uma boate gay daqui da cidade. Lá, mesmo estando sozinho, me senti liberto de minhas próprias amarras. E a sensação de liberdade da alma que vivenciei me mostrou que, mesmo com todas as ressalvas que eu ainda pudesse ter ao "meio", certamente aquele era muito mais o meu ambiente.

quarta-feira, fevereiro 21, 2007

Despedida


"Tão perto...
Tão longe...
Assim é a linha do horizonte.
Por mais que a gente corra na sua direção, nunca consegue alcançar.
Mas mesmo assim ela nunca sai de nosso campo de visão."


Mais um post rápido, ainda do Rio de Janeiro. Em poucos minutos parto desta cidade e ainda hoje estarei de volta a Belo Horizonte. Depois escreverei um posto sobre o carnaval,a viagem, etc. Neste momento, mais uma vez, quero apenas registrar alguns pensamentos que tive.

Despedi-me da Cidade Maravilhosa contemplando o mar na Pedra do Arpoador. A força das águas batendo nas pedras, o barulho das ondas, o reflexo do sol nas águas... Após quase um dia inteiro contemplativo, aquela paisagem me fez viajar longe.

Continuo sendo um sujeito de puro sentimento. E constatei que até um arroubo de melancolia é capaz de me fazer feliz. Feliz porque me lembra que ainda sou capaz de me emocionar profundamente. E se isso é verdade, tenho certeza que, de alguma forma, em algum lugar no tempo e no espaço ainda poderei gozar novamente de uma sensação de completude que por um tempo já inundou o meu ser.
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